A minha infância não terminou quando entrei na idade adulta.

Sobre viver em estado de alerta permanente, a fome de aceitação e a construção de uma armadura.

Escrevo sob pseudónimo — mas isto não é ficção.

A minha infância não terminou quando entrei na idade adulta.

A casa onde cresci ensinou-me a “hipervigilância”

Há casas onde uma criança aprende que o mundo é previsível. E há casas onde aprende que o mundo se parece com fenómenos meteorológicos — é violento, instável e perigoso.

Nessas casas, não aprendes calma. Aprendes estado de alerta permanente:

reparas em microexpressões antes de haver palavras

sentes a mudança de humor antes de alguém dizer o que quer que seja

o teu corpo reage mais depressa do que os teus pensamentos

o silêncio parece mais alto do que um grito

As pessoas chamam-lhe muitas vezes hipervigilância. Mas, para uma criança, isto não é um sintoma — é uma competência. É a arte de sobreviver.

O problema é que as competências que te permitem sobreviver na infância podem, em silêncio, começar a comandar a tua vida adulta.

Fome de aceitação: um vício silencioso
Um dos aspetos mais enganadores do trauma é como, por fora, ele pode parecer uma virtude. És responsável. Estás pronto/a para ajudar. És fiável. Estás sempre “bem”. Esforças-te sempre.

Por dentro, pode parecer assim:

Se eu conseguir a aceitação deles, nada de mau me acontece.

Se eu os desiludir, vai acontecer alguma coisa má.

Se eu não cometer nenhum erro, não serei castigado/a.

Se eu for ideal, ninguém me vai abandonar.

É isto que quero dizer com fome de aceitação. Não é vaidade. É um contrato antigo: “Vou merecer o meu direito de existir”.

E isto é absolutamente exaustivo.

Armadura: quando a força se torna uma das máscaras
A maioria das pessoas após trauma não anda pelo mundo a pensar: “Trago trauma dentro de mim”. Pensam mais: “Sou uma pessoa forte. Vou aguentar”.

A armadura pode assumir estas formas:

entorpecimento emocional (“Não sinto nada”)

controlo excessivo (planear tudo, necessidade obsessiva de certeza)

hiperindependência (“Não preciso de ninguém”)

cinismo (“a esperança é perigosa”)

culto do desempenho (“Vou merecer amor se tiver sucesso”)

A armadura protege da dor — mas, ao mesmo tempo, bloqueia a ternura, a proximidade e o descanso.

A certa altura, percebes: Já estou em segurança, mas o meu corpo continua a comportar-se como se não estivesse. É nesse momento que a “infância” volta a fazer-se sentir.

Papéis familiares: bode expiatório e criança-herói
Em muitas famílias disfuncionais, as crianças não apenas crescem — são-lhes atribuídos papéis concretos. Dois dos mais comuns são o bode expiatório e a criança-herói.

Bode expiatório
O bode expiatório carrega às costas aquilo que a família não quer enfrentar. Torna-se o “problema”, para que todo o sistema possa fingir que tudo o resto funciona na perfeição. Muitas vezes, é precisamente essa pessoa que:

é culpada quando a tensão aumenta

recebe o rótulo de “demasiado sensível”, “difícil”, “dramática”

diz a verdade e é castigada por isso

Criança-herói
A criança-herói é a prova da família de que “está tudo bem connosco”. Aprende a:

encenar competência e calma

resolver problemas antes de alguém pedir

sacrificar as próprias necessidades para manter a paz

assumir responsabilidades muito para além da sua idade

O truque é que ambos estes papéis são formas de abandono. Um é rejeitado. O outro é recompensado — por não precisar de nada.

E de ambos pode crescer, na vida adulta, uma identidade extremamente dolorosa: “Só conto quando sou útil”.

Porque é que dar nome às coisas importa
O meu processo de recuperação não começou porque alguém me deu o conselho perfeito. Começou a encaixar quando, finalmente, recuperei a linguagem.

Dar nome às coisas, por si só, não é terapia. Mas dar nome muda algo a um nível profundo:

transforma vergonha em compreensão

separa “quem eu sou” daquilo “que aconteceu”

dá ao teu sistema nervoso um ponto de referência

Quando consegues dizer: Isto é hipervigilância — deixas de te chamar “maluco/a”. Quando consegues dizer: Isto é uma reação ao trauma — deixas de te chamar “fraco/a”. Quando consegues dizer: Isto é fome de aceitação — deixas de correr até à exaustão, a achar que isso é amor.

A linguagem torna-se uma lanterna.

Uma direção suave: voltar a ti
Às vezes, as pessoas perguntam: Qual é o sentido de escrever sobre isto? Para mim, a resposta é simples: quero construir uma ponte entre a experiência vivida e a clareza mental. Quero oferecer aquilo que me faltou — uma forma de te reconheces sem seres engolido/a por esta história.

Nem toda a gente quer um tom de manual de autoajuda. Nem toda a gente quer ouvir jargão clínico. E nem toda a gente está pronta para falar sobre isto.

Por isso, tento escrever de uma forma que se pareça com:

uma mão no ombro, não uma palestra

sinceridade sem a transformar num espetáculo

verdade sem humilhar

Se estás a ler isto e algo no teu corpo diz “sim” — não estás sozinho/a nisto. Não precisas de correr um sprint. Não tens de provar nada. Podes avançar devagar. Podes fazer pausas. Podes voltar aqui.

É isto que “voltar a ti” significa para mim: não tornar-te alguém novo, mas recuperar aquilo que foi enterrado.

Nota de segurança
Este artigo é uma reflexão pessoal, não um conselho médico. Se estás em perigo imediato ou em crise, contacta os serviços de emergência locais ou um/a profissional de confiança. Para muitas pessoas, trabalhar com trauma é mais seguro quando é feito com suavidade e com o apoio adequado.

Se te encontras nisto
Estou a escrever uma série em vários volumes sobre trauma, mecanismos de sobrevivência (ACA) e a recuperação da própria agência — não para vender dor, mas para lhe dar nome e abrir espaço para um caminho de regresso.

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